Highlights

  • Conheça um pouco sobre os perfis de facilitador e solucionador de problemas para saber com qual você se identifica mais;
  • Avaliar o seu perfil requer que você conheça a si mesmo e converse com outras pessoas;
  • Busque por situações onde você consegue explorar melhor seu potencial e se sentir mais satisfeito;

Visão geral

Recentemente eu fui exposto a um dilema profissional interessante: atuar liderando iniciativas que facilitariam a utilização de Machine Learning em toda a empresa, ou então assumir iniciativas associadas a um macro-problema e que envolveria o uso de Machine Learning como ferramenta para potencializar a solução do problema em si. Eu acabei optando pela segunda opção após entrar em um processo de reflexão sobre o meu perfil, o que me satisfaz mais e como consigo contribuir de maneira mais assertiva, e gostaria de compartilhar alguns detalhes desta minha reflexão neste artigo.

Facilitador VS Solucionador de problemas

Antes de expôr a reflexão em si, eu gostaria de pontuar aqui o que estou chamando de facilitador e solucionador de problemas:

  • O facilitador é a pessoa que “lubrifica” a utilização de determinada ferramenta ou tecnologia por outras pessoas da empresa, independente de sua área de atuação. No meu caso, eu teria o papel de criar ferramentas que facilitariam a criação e publicação de modelos org-wise, sendo o facilitador da aplicação de Machine Learning na empresa;
  • O solucionador de problemas é a pessoa que tem a missão de resolver uma família de problemas específicos, utilizando algumas tecnologias de domínio do time (por exemplo, desenvolvimento backend/frontend, machine learning, entre outros) e também colaborando com outras operações que podem estar associadas a este problema. No meu caso em específico, a família de problemas em si está associada com a Segurança e Qualidade de um marketplace.

O ponto principal da minha reflexão foi qual seria a minha abordagem, em ambos os casos, e como esta abordagem estaria associada às minhas crenças, preferências e aprendizados prévios. Isso é importante para prever fricções futuras e estimar, de maneira grosseira, se o meu trabalho teria bastante impacto para a empresa, uma vez que eu seria o responsável por “dar o tom” da execução das iniciativas.

O facilitador

Ao me colocar no papel de facilitador, eu me vi interagindo com inúmeros problemas diferentes de maneira superficial, tentando mapear as principais dores das diversas áreas e traduzindo-as em ações que permitiriam que determinadas iniciativas das áreas fossem executadas. Ao meu ver, este tipo de pensamento tem algumas premissas associadas:

  • Eu estaria assumindo que esta ferramenta será amplamente usada pela empresa, o que exige uma série de dependências de outros fatores como proficiência das pessoas em usar tal ferramenta. Por exemplo, se eu construo um reator nuclear em uma empresa metalúrgica esperando que todas as pessoas possam usá-la de maneira adequada e tirando o máximo de seu potencial, talvez eu devesse esperar uns 2-4 anos para que muitos conseguissem estudar o suficiente para ganhar o conhecimento necessário para tal;
  • Eu estaria abraçando a frase do Maslow que, traduzida pelo popular brasileiro, diz: “Quem vende martelo quer que o mundo acabe em prego”.

O solucionador de problemas

Do outro lado, me coloquei no papel do solucionador de problemas, onde teria contato com um número reduzido de problemas de maneira mais profunda, tendo como papel principal reduzir os impactos negativos causado pelos problemas e aproveitar oportunidade oriundas deles para aumentar os resultados da empresa, papel que traz consigo as seguintes premissas:

  • Eu teria que buscar a melhor solução para o problema (custo-benefício, escalabilidade, manutenção, etc.) independente da ferramenta para tal solução. Ou seja, posso me deparar diversas vezes com uma solução onde não precisarei utilizar Machine Learning/Data Science para aplicar a melhor solução ao problema;
  • Quando pensamos em dores causadas por problemas “gritantes”, soluções que tem perspectivas de resultados no curto-prazo ganham uma relevância muito grande durante priorizações, o que pode levar um time a trabalhar nos famosos “puxadinhos” de soluções e causar um problema grande de continuidade no longo prazo.

O que refleti bastante para analisar o dilema

Para comparar tais situações, procurar os pontos fracos e fortes e tomar minha decisão, eu analisei três pontos que considero fundamentais para a execução de um trabalho:

  • Meus valores e crenças sobre o que é um trabalho bem feito dentro da minha área de atuação;
  • Quais são os pontos fortes que possuo e como eles se projetam no desafio em vista;
  • O que me trará mais satisfação e perspectivas futuras;

Valores e crenças

Toda pessoa possui uma “caixa” de valores e crenças e foi preenchida ao longo do tempo e, espero eu, que vá sendo atualizada com novas experiências e fases da vida. Por mais que pareça óbvio, eu sugiro fortemente que você olhe para essa sua caixa constantemente e avalie se está contente com o que está dentro dela.

No caso desta reflexão, eu identifiquei quais seriam meus principais valores associados à iniciativas de resolver problemas usando tecnologia:

  • Para escolher uma boa ferramenta, você precisa enxergar claramente qual é o seu problema. A analogia que faço sempre sobre este assunto é: se você tentar fixar um quadro na parede tendo um martelo e um parafuso em mãos pode até funcionar, mas você poderia ter um processo muito menos doloroso e com melhores resultados se tivesse olhado um pouco melhor para o problema e suas condições de contorno antes de escolher a solução do seu problema. Olhando para ML/DS, é esperado que muitas pessoas queiram utilizar estas ferramentas para resolver problemas, dado o hype do momento. É importante lembrar também que ferramentas mais sofisticadas exigem bastante conhecimento para manuseio e, se aplicadas de maneira errada, podem gerar mais problemas do que soluções. Como analogia, se uma pessoa com pouco conhecimento de metalurgia tentar fazer uma solda elétrica, ela pode “matar” a peça e gerar efeitos colaterais grandes (problemas no olhos, queimaduras, etc.) se não souber aplicar os EPIs e técnicas adequada.

  • Não existe bala de prata. Seria muito cômodo ter uma mesma ferramenta que resolvesse todos os nossos problemas, porém é deveras utópico este pensamento. Cada problema específico tende a requerer ferramentas e soluções específicas e que terão seu tempo de vida. Afinal, assim como os problemas, soluções também são efêmeras e devem ser reavaliadas com certa frequência.

  • Seja simples, e não simplista. Antes se qualquer coisa, gostaria de pontuar o significado de simples que usarei neste contexto. Eu gosto da abordagem do Cortella sobre simplicidade: algo simples significa suficiência, enquanto algo simplista significa algo despreza elementos necessários na solução de um problema (sugiro leituras sobre a Navalha de Ockham). Sendo assim, precisamos resolver os problemas de maneira simples, de forma a reduzir esforços ao máximo porém sendo suficiente na solução do problem (o que exige que você conheça bem o problema - voltamos ao primeiro ponto). Uma solução simplista poderia aplicar algo cool porém que consome um tempo significativo e que não resolve todos os aspectos necessários do problema.

É importante ressaltar aqui que, ao longo das conversas para avaliar ambos meus papéis, eu avaliei o pensamento das pessoas que trabalhariam comigo (líderes, pares, etc.) sobre tais valores e avaliar se haveria sinergia ou fricção de valores.

Pontos fortes

Um aprendizado recente que me foi de grande valia, obtido na leitura do livro “O lado difícil das coisas difíceis” do Ben Horowitz, é que a avaliação de uma pessoa para determinada posição deve considerar os pontos fortes que são necessários para tal posição, e não os pontos fracos que não podem existir para tal. Eu aplico isso tanto para situações onde eu preciso contratar/alocar uma pessoa para determinada iniciativa quanto para auto-avaliações quando eu estou em fase de decidir se aceito um novo desafio profissional.

No meu caso, a minha auto-avaliação (que certamente tem diversos biases), me mostra que tenho os seguintes pontos fortes:

  • Alta adaptabilidade a novos contextos (problemas e desafios) e ambientes (pessoas e condições de contorno);
  • Curva de aprendizado bastante acentuada para compreender os pontos mais fundamentais de um contexto, não necessariamente para os tópicos mais profundos;
  • Habilidades para compreender o real problema existente, pois muitas vezes existe uma distância grande entre o problema sendo avaliado e o real problema existente;
  • Criatividade em encontrar soluções simples para os problemas que enfrento;
  • Boas habilidades de comunicação e manipulação (sim, no mundo corporativo há muita manipulação no sentido literal da palavra) para viabilizar a solução de um problema;

Satisfação e perspectivas futuras

Com base nos itens anteriores, eu passei a pensar onde estaria mais satisfeito. Entendo que, para mim, teria maior satisfação se tivesse a oportunidade de aplicar meus pontos fortes e conseguir várias realizações. E, me conhecendo, eu entendo que me sinto realizado quando vejo algo gerando valor até o final da cadeia de valor da qual faço parte, o que me leva à seguinte comparação:

  • Atuando como um facilitador, eu forneceria ferramentas para que outras pessoas resolvessem os problemas. Supondo que a ferramenta estivesse perfeita e que a solução criada sobre ela funcionasse muito bem, teria um cenário perfeito. Porém, se a ferramenta estiver perfeita mas a solução não estiver e/ou o problema não for mais atacado, eu sentiria certa frustração em não ter gerado o valor necessário;
  • Atuando como um solucionador de problemas, eu usaria ferramentas fornecidas por outras pessoas para construir a solução e teria como missão fazer o necessário para resolver tal problema, tendo uma dependência menos de pessoas, alinhamentos, etc. para fazer o valor chegar até o final da cadeia. Isso me deixaria mais satisfeito. Obviamente, teriam cenários de falhas e frustrações, mas que estariam sob uma zona de influência mais próxima a mim e onde eu teria maiores capacidades de reverter a situação.

Além da satisfação em si, avaliei as perspectivas futuras. Supondo que tivesse tremendo sucesso em cumprir meu papel e estivesse pensando no próximo passo, me veria capaz de resolver problemas diferentes e/ou maiores, o que geralmente existe em toda empresa. Entretanto, não me enxergo operando ferramentas/plataformas que já funcionam muito bem e fazem parte do cotidiano das pessoas.

Conclusões

Juntando todos os pontos acima, junto com outros fatores não abordados aqui (questões pessoais, financeiras, conversas com pessoas, etc.), decidi seguir com o perfil de solucionador de problemas e aceitar o desafio associado a isso. Entendo que, por ocupar papéis de liderança, eu também tenho que facilitar o cotidiano do time e das outras pessoas envolvidas. Entretanto, a facilitação será um meio para resolver os problemas, e não o fim.

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